quinta-feira, 29 de abril de 2010

Modelo bíblico de contextualização da mensagem


Esse assunto, a partir da experiência bíblica de Paulo, surge em três momentos específicos. Apesar de Paulo ser o apóstolo dos gentios (Gl. 1:16), ele era um judeu devoto. Dessa forma, a partir das suas exortações e ensinos, ele apresenta princípios da pregação da mensagem que devem ser analisados.
No livro de Atos, ele apresenta três passagens selecionadas que proclamam o Evangelho. Primeiramente a um grupo formado por judeus; noutra ocasião a judeus, mas com presença gentílica simpatizante do judaísmo, e por fim para gentios totalmente dissociados do mundo judaico e de seus valores provindos da Torá. Paulo, ao apresentar a mensagem, não compromete sua autenticidade, porém a comunica com aplicabilidade cultural para que haja boa comunicação, utilizando os elementos necessários sem emascular a mensagem bíblica.
Em Atos 9:19-22, Paulo está em Damasco com os discípulos proclamando Cristo nas sinagogas apresentando-O como “o Filho de Deus”. Ali o encontramos logo após ser salvo, expondo nas Escrituras que o Jesus que ele perseguia no passado tão próximo, era de fato o Filho de Deus. A expressão grega do verso 22 para “demonstrando” (que Jesus era o Messias prometido), implica em demonstração com evidências objetivas, visíveis, que produzem a impressão de que Paulo o fazia através do próprio texto sagrado, as Escrituras. Sua maneira e estilo homilético seguia a mesma dinâmica que ele usaria em todo o seu ministério entre os judeus - demonstrando a partir da mensagem escrita que Jesus é o Messias (At. 17:1-3). Paulo tinha consciência de que ao mostrar aos judeus o Messias, teria que fazê-lo através das Escrituras. Sua abordagem foi baseada nas Escrituras, centralizada na promessa do Messias e apresentando evidências claras aos judeus de que Ele era Jesus. Paulo aqui falava aos filhos de Israel que se viam como os filhos da promessa e, portanto, em toda sua mensagem valia-se ele de elementos conhecidos a esse povo. Ele usa a estratégia de partir do conhecido para o desconhecido.
Em Atos 13:14-16, encontramos Paulo “atravessando de Perge para Antioquia da Psídia, indo num sábado à sinagoga”. Logo depois, passou a lhes proclamar a Cristo. Nesse texto, o grupo culturalmente definido é o mesmo de antes: judeus. Havia, porém, a presença gentílica de simpatizantes da fé judaica. Paulo apresenta um dos principais fatos da história judaica: o Êxodo. Então recorda a história de Israel até Davi e assim os leva ao Messias. (At. 13:23) É interessante como Paulo prega a Cristo a partir do conhecido, o “Deus de Israel”, com sua base no Antigo Testamento, para que a mensagem do Messias seja plena. Porém, o apóstolo disserta com forte idéia escatológica, que a distingue da primeira em Atos 9, apenas para aos judeus, demonstrando sua sensibilidade para com um auditório misto, mesmo que prioritariamente judeu e judaizante. No verso 39, Paulo utiliza um texto, (todo aquele), dizendo que todo aquele que cresse seria salvo. Certamente os gentios judaizantes, fora da história etnológica de Israel, se viam aí incluídos: um Messias judeu que convida todas as raças e culturas.
Em Atos 17:16-31, Paulo prega Jesus aos gentios que nenhum conhecimento tinham das Escrituras. Paulo está em Atenas, o centro filosófico do mundo da época, e é conduzido até o Areópago pelos epicureus e estóicos. Nesse momento, ele se encontrava num cenário totalmente paganizado e sem pressupostos judaizantes. Aqui Paulo se utiliza das formas sem mudar a essência. Paulo lhes pregou Deus, a partir das evidências da criação e do deus desconhecido, “pois este que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio” (At. 17:23). Passa então a apresentar-lhes a Soberania de Deus que “fez o mundo. Ele como o Senhor do céu e da Terra. Note que no verso 24, Paulo utiliza Theos para se referir ao “Deus que fez o mundo”, sendo o mesmo termo utilizado (Theos) para mencionar o deus desconhecido. Paulo aqui não faz distinção verbal para que a mensagem chegue sem um ruído aos ouvintes. Ele utiliza a ideia existente de deus para apresentar o Deus da Palavra, Criador de todas as coisas. O fim da mensagem é o mesmo: Jesus que morreu e ressuscitou.
Aos judeus, Paulo fala sobre “o Deus da promessa”, Aquele que os trouxe do Egito, pois eles conheciam o Deus da Escritura e se viam como os filhos da promessa. Entendiam que Deus Se revelou a seus pais, que interagiu com Seu povo ao longo da história e lhes deixou as Escrituras.
Ao segundo grupo, Paulo fala sobre o Deus das promessas e da história de Israel, mas, como havia entre eles gentios, fala-lhes também do Messias que haveria de vir para a Salvação de todo aquele que crê. Percebemos aqui que Paulo apresenta o Evangelho com fortes evidências escriturísticas para os judeus, além de um forte apelo moral e escatológico para os gentios judaizantes.
Ao terceiro grupo, o gentílico, o Messias que viria não lhes transmitia nenhuma mensagem aplicável à sua história, pois era visto tão somente como o Messias judeu. Eles não tinham as Escrituras que O revelavam nem as promessas e alianças. Eles não se enxergavam como filhos da promessa e não se identificavam com Abraão e Moisés. Porém, se viam como filhos da Criação. Possuíam tremenda atração pelas obras criadas e fascinação pela figura do Criador. Eram procuradores de respostas, estudiosos da religião. Portanto, Paulo lhes pregou o Deus da criação, Aquele que era antes de qualquer outro, que detém o poder de fazer surgir e manter a humanidade e o cosmos. Ele lhes fala demoradamente sobre os atributos desse Deus que é único, soberano, próximo e perdoador. Finalmente lhes fala de Jesus como o centro do plano salvífico de Deus, apresentando-O como o Messias para toda a humanidade. Paulo aqui cria uma ponte sobre o abismo religioso e cultural, a fim de pregar o Evangelho. Com isso o dialogo é iniciado.

Pr. Chaguri

Mestre em Missiologia

1 comentários:

Anônimo disse...

Olá Pr. Chaguri tenho acompanhado os seus artigos sobre Missiologia e analiso, não apenas a sua profundidade teológica, mas, a paixão com que escreve. É visível em cada linha.
Achei adequada a maneira com que você trabalhou a contextualização em I Coríntios 9. São Paulo, onde você Ministra a Palavra de Deus, está precisando de uma visão assim. PARABÉNS!!

Pr. Cirilo Gonçalves da Silva Mestre em Teologia Bíblica e Pastoral.
Evangelista da União Centro Oeste Brasileira da Igreja Adventista do Sétimo Dia e Diretor dos Departamentos de Ministério Pessoal e Missão Global.